Terra conversou com Emma, jovem que surgiu como representante nas redes sociais da ala feminista do grupo Black Blocs, que tem tomado a dianteira das manifestações em todo o País
Olhos claros, rosto encoberto. Fama de namoradeira,
discurso político afiado. No universo negro, sem trocadilhos, dos Black
Blocs, ela surgiu como representante nas redes sociais da ala feminista
do grupo que tem tomado à dianteira das manifestações em todo o País.
“Não sou feminista, as pessoas confundem muito”, tratou logo de avisar.
Há cerca de duas semanas, ao contar um pouco de sua trajetória em
entrevista para a Mídia Ninja, órgão independente que se tornou a voz
dos ativistas, ficou ainda mais conhecida pelo fato também de ter o nome
da famosa anarquista do século XX, a lituana Emma Goldman, que, com
seus artigos e atitude anticapitalistas, foi a referência do movimento
na época, na América do Norte.
A jovem Emma, simples assim, sem maiores detalhes de sua
vida pessoal, é uma manifestante de 25 anos, do Rio de Janeiro, que
virou o rosto da capa da revista Veja para ilustrar uma extensa
reportagem sobre os Black Blocs, movimento que tem fama de arruaceiro e
de enfrentamento para com a Polícia Militar.
“Usaram uma foto minha sem a minha autorização. Foi surpreendente para mim”, esclareceu em entrevista na qual o Terra foi
autorizado a participar, junto com integrantes da Mídia Ninja, em plena
avenida Delfim Moreira, no Leblon, próximo ao apartamento onde vive o
governador fluminense Sérgio Cabral (PMDB),
o grande alvo das manifestações no Rio de Janeiro. Emma é integrante do
Ocupa Cabral, movimento que há 23 dias acampa no local para pedir a renúncia de Cabral.
Totalmente arredios a entrevistas para o que chamam de
“grande mídia sensacionalista”, os jovens de ambos os movimentos
costumam convocar assembleia para decidirem se concedem ou não
entrevista para um determinado órgão de imprensa. “A gente até acredita
no jornalista, no profissional, mas a gente sabe que quando ele levar
aquele material para dentro da redação eles vão ser manipulados”, disse
Emma, em sua opinião.
Com o Terra, a situação não foi
diferente. O repórter fotográfico Daniel Ramalho foi "aprovado" e teve
acesso ao encontro marcado e gravado para que Emma apresentasse sua
fúria, recheada de argumentos, para com o seu perfil publicado pela
Veja. “Eles provavelmente pegaram esse depoimento do Mídia Ninja e
cataram umas frases avulsas. Essa questão da manipulação tendenciosa é
que eu me sinto sacaneada (sic). E fico bem irritada, pois eu fico
imaginando quem é que está por trás disso, qual é a intenção real disso,
quem é que está mandando?”, opinou a jovem.
“Eu não me sinto ofendida, até porque a gente conhece o
histórico político da Veja e se a gente for analisar todas as pessoas
que foram execradas pela revista até que eu estou num hall bem bacana. E
eu acho que ser ridicularizado pela Veja significa que a gente está
certo. Se eu recebesse qualquer tipo de apoio ou aprovação,
sinceramente, iria desfazer esse acampamento e começaria tudo do zero”,
completou.
Eu estou cagando para o que as pessoas vão dizer
Emma
Integrante do Ocupa Cabral
A publicação em nenhum momento diz que conversou com
Emma, e usa informações, de fato, do que foi dito na entrevista anterior
ao Mídia Ninja, para reunir informações como, por exemplo, que a jovem
saiu de casa aos 16 anos para viver numa favela
e que chegou a trabalhar num banco, antes de abandonar o emprego “por
desobediência civil”. Ela publicará em sua página pessoal no Facebook
uma carta aberta a Veja na qual repudia o tom do artigo. E esclarece que
a camisa vermelha da foto “é a bandeira da Paraíba” e que o grupo “não
tem estoque grande de roupa preta, nenhuma loja de rock resolveu
patrocinar os Black Blocs”, ironizou.
Para a manifestante, a fama repentina junto com sua foto
espalhada, inclusive, em outdoors pelo País pode, no final, acabar
sendo considerado “um favor para mim com toda essa visibilidade, porque
se eu sofrer qualquer tipo de tentativa de agressão e homicídio, as
pessoas já sabem quem é a Emma. E se tentarem algo, isso pode ser
estopim para uma revolta ainda maior”. “Eu temo, sim, pela minha vida,
temo pela minha família, mas isso não vai me cercear. Não vou sair do
Ocupa Cabral, e não vou deixar de ir às manifestações”, disse ainda.

Ativismo político x ‘namoradeira’
Se não esclareceu nome e sobrenome, Emma, ao menos, repercutiu a fama repentina tratando logo de desmentir o que considerou uma série de boatos que vêm surgindo a seu respeito. “Tem gente dizendo que eu estou fazendo vídeo de inscrição para o Big Brother Brasil. Outros que eu vou posar para a Playboy. Se eu for realmente começar a ficar paranoica com essa gente vai começar a dizer, eu vou parar para me preocupar só com isso e vou parar de fazer coisas extremamente importantes aqui dentro”, justificou.
Se não esclareceu nome e sobrenome, Emma, ao menos, repercutiu a fama repentina tratando logo de desmentir o que considerou uma série de boatos que vêm surgindo a seu respeito. “Tem gente dizendo que eu estou fazendo vídeo de inscrição para o Big Brother Brasil. Outros que eu vou posar para a Playboy. Se eu for realmente começar a ficar paranoica com essa gente vai começar a dizer, eu vou parar para me preocupar só com isso e vou parar de fazer coisas extremamente importantes aqui dentro”, justificou.
Eu sou realmente namoradeira e acho triste as pessoas que não fazem esse tipo de coisa
Emma
Integrante do Ocupa Cabral
Sorridente, ela disse não entender o fato de que seus
olhos claros, esverdeados, possam ter o poder de torná-la uma espécie de
“sex symbol” das manifestações. “Eu achei muito engraçado o fato das
pessoas terem começado a me fazer muitos elogios, me chamando de linda, e
bonita. Com uma máscara! Como as pessoas conseguiram associar a isso se
eu estou coberta? Claro que tem a questão dos olhos, mas tem outras
meninas de olhos claros aqui na ocupação. Isso é uma bobagem”,
explicou.
“Eu tenho vaidade de cuidar do cabelo (por exemplo).
Isso me foi imposto de certa forma e é difícil me desvincular disso.
Posso dizer que não teve tratamento melhor do que permanecer ocupada
numa via pública. Não tem como você ter controle disso, e você está
preocupada com coisas muito mais importantes”, esclareceu ainda sobre se
é vaidosa ou não sem ter um lugar certo para tomar banho e fazer suas
necessidades básicas - ela também participa da ocupação na Câmara
Municipal de Vereadores contra a presidência e relatoria da Comissão
Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Ônibus.
Ela tratou também de deixar claro “que as mulheres que
estão na ocupação não ficam lavando a louça, enquanto os homens ficam
preparando a parte pesada. Pelo contrário. As mulheres têm tido uma voz
muito mais respeitada e ouvida do que muitos homens aqui.”
Usaram uma foto minha sem a minha autorização. Foi surpreendente para mim
Emma
Integrante do Ocupa Cabral
Outra fama não menos polêmica que recaiu sobre Emma é a de “namoradeira”. O Terra não
presenciou a manifestante com nenhum ativista, mas alguns relatos,
entre eles da própria Veja, dão conta de que a jovem estaria desfrutando
bastante de seus momentos de lazer em plena avenida Delfim Moreira.
“De forma nenhuma isso seria algo ruim, eu sou realmente
namoradeira e acho triste as pessoas que não fazem esse tipo de coisa.
Sem ter a oportunidade de troca de fluidos, pensamentos e energias. Nos
sete primeiros dias eu não tinha me relacionado com ninguém e isso tinha
me deixado bastante estressada. Aí consegui um companheiro para trocar
carinho. O afeto aqui sempre vai ser celebrado”, justificou, sem
pudores. Afinal de contas, Emma conta que sempre preferiu ser direta e
reta. “Eu estou cagando para o que as pessoas vão dizer.”
Protestos contra tarifas mobilizam população e desafiam governos de todo o País
Mobilizados
contra o aumento das tarifas de transporte público nas grandes cidades
brasileiras, grupos de ativistas organizaram protestos para pedir a
redução dos preços e maior qualidade dos serviços públicos prestados à
população. Estes atos ganharam corpo e expressão nacional, dilatando-se
gradualmente em uma onda de protestos e levando dezenas de milhares de
pessoas às ruas com uma agenda de reivindicações ampla e com um
significado ainda não plenamente compreendido.
A
mobilização começou em Porto Alegre, quando, entre março e abril,
milhares de manifestantes agruparam-se em frente à Prefeitura para
protestar contra o recente aumento do preço das passagens de ônibus; a mobilização surtiu efeito, e o aumento foi temporariamente revogado. Poucos meses depois, o mesmo movimento se gestou em São Paulo, onde sucessivas mobilizações atraíram milhares às ruas; o maior episódio ocorreu no dia 13 de junho, quando um imenso ato público acabou em violentos confrontos com a polícia.
A grandeza do protesto e
a violência dos confrontos expandiu a pauta para todo o País. Foi assim
que, no dia 17 de junho, o Brasil viveu o que foi visto como uma das maiores jornadas populares dos últimos 20 anos.
Motivados contra os aumentos do preço dos transportes, mas também já
inflamados por diversas outras bandeiras, tais como a realização da Copa
do Mundo de 2014, a nação viveu uma noite de mobilização e confrontos
em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Salvador, Fortaleza, Porto Alegre e Brasília.
A
onda de protestos mobiliza o debate do País e levanta um amálgama de
questionamentos sobre objetivos, rumos, pautas e significados de um
movimento popular singular na história brasileira desde a restauração do
regime democrático em 1985. A revogação dos aumentos das passagens já é
um dos resultados obtidos em São Paulo e outras cidades, mas o movimento não deve parar por aí. “Essas vozes precisam ser ouvidas”, disse a presidente Dilma Rousseff, ela própria e seu governo alvos de críticas.
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